A cerca de 8km do centro de Alagoinhas, município do agreste baiano, a Comunidade do Buri, uma das mais tradicionais da região, foi reconhecida pela federação brasileira como um Remanescente de Quilombo. A decisão foi publicada no publicada no dia 10 de novembro, no Diário Oficial da União, pela portaria nº 347 da Fundação Cultural Palmares, e vai beneficiar cerca de 40 famílias que vivem na localidade, que agora terão acessos a direitos territoriais e políticas públicas previstas na constituição.
O reconhecimento vem após décadas de movimentos sociais, atravessando entraves políticos e judiciais, que atuaram para despertar o sentimento de pertencimento nos moradores. Entre os nomes que estiveram à frente do processo de construção dessa identidade coletiva, se destacam o professor Gilvan Barbosa da Silva, que faleceu em 2021 deixando um legado de luta, e o artista Raimundo Cavalhier, que deu continuidade a caminhada.
Nascido e criado no Buri, Raimundo foi responsável por mobilizar o quilombo em projetos como rodas de conversas e oficinas de fotografias. As ações eclodiram em maio de 2025 com o lançamento do documentário “Memórias e Tradições”, dirigido pelo artista, onde conta a história do Buri através de relatos de fundadores e moradores antigos do quilombo, mapeando os saberes e o percurso cultural, religioso e identitário dos habitantes da pequena região banhada pelo Rio Catu. Logo depois, apresentou uma exposição sobre o quilombo em Paris, num evento considerado uma das maiores vitrines culturais da periferia.
Com a repercussão do seu trabalho, que ganhou milhares de visualizações no Youtube e atravessou o oceano colocando o Buri no mapa, a falta de reconhecimento foi amplamente conhecida e Raimundo convocou uma reunião e recolheu assinaturas de todos os moradores que pediam a certificação da comunidade.
“Agradeço profundamente a cada morador e, especialmente, aos mais velhos da nossa comunidade, que me receberam em suas casas, dividiram suas histórias, abriram seus guardados de memória e permitiram que este trabalho coletivo ganhasse vida. Meu agradecimento também à Associação de Moradores e ao presidente Elielson, que caminharam junto durante todo esse processo. Expresso minha gratidão à CUFA e Karina Tavares, diretora da CUFA França, que enxergou a potência do Buri para além das fronteiras. Agradeço também a Ricaule, de Brasília; a Edi e Alan, da Fundação Palmares; a Larissa Quilombo; a Adriano Machado; à minha família, que é minha base; a Fábio, o Nego D’Água; e a todas as pessoas que contribuíram, de forma direta ou indireta, para que essa solicitação e, hoje, essa certificação se tornassem realidade”.
De acordo com a portaria, assinada pelo presidente da Fundação Palmares, a certificação foi concedida com base na Declaração de Autodefinição apresentada pela própria comunidade, cumprindo os procedimentos previstos na Portaria FCP nº 98/2007 e conforme a Lei nº 7.668/1988 e o Decreto nº 4.887/2003, que regulamenta o processo de identificação, reconhecimento e titulação das comunidades quilombolas no país.
SOBRE O BURI
Cortada pelo Rio Catu, a comunidade do Buri é a quinta reconhecida pelo Instituto Palmares como remanescente de quilombo. Com cerca de 377,5 hectares de terra e 40 famílias, as principais atividades econômicas da região são a pesca e agricultura. Na cultura, o quilombo tem a capoeira e o samba de roda como grandes símbolos. A localidade conta com uma escola, mas enfrenta escassez em setores como transporte público, lazer e saúde.
SOBRE RAIMUNDO CAVALHIER
Raimundo Anunciação é um artista do interior da Bahia, que se destaca como, arquiteto, fotógrafo e pesquisador. Suas obras se concentram em projetos profundamente ligados à identidade, ao território e à memória, explorando as políticas de vida que moldam o cotidiano. Desenvolve trabalhos artísticos em fotografia, vídeo e objetos, utilizando sua arte para investigar questões de pertencimento, resistência e diversidade. Nascido em Alagoinhas, Raimundo foi criado na Comunidade do Buri, um quilombo cortado pelo Rio Catu. Esse afluente tem uma presença forte em seu trabalho, o qual ele chama de “percurso ciliar”, inspirado pela vegetação que acompanha e protege os cursos d’água.








